Passaram-me recentemente dois livros pelas mãos… e permaneceram no intelecto. Fiquei vários dias a pensar naquilo que tinha lido. Duas histórias, dois modos diferentes para falar sobre a justiça e a misericórdia.
Ambos pareciam confirmar que a justiça não é sinónimo de misericórdia. Porquê? Porque a misericórdia inclui a justiça mas, por outro lado, a justiça não espelha toda a riqueza e força da misericórdia. Esta prepara e conduz a justiça para que reconheça no “Amor” (outro nome para a misericórdia ou caridade) o alimento que a faz mover. Trata-se, no fundo, de um círculo hermenêutico onde estes dois elementos reclamam-se mutuamente. E removendo alguma destas forças fere-se de morte o círculo virtuoso, desfigurando-se aquilo que de mais profundamente existe no ser humano.
Ben Sira dizia que “o orgulho não foi criado para os homens, nem a ira para os nascidos de mulher” (Sir 10, 18). O mesmo é dizer que habitar fora da lógica do amor, por mais frágil que ele seja, é desumano. Não é humano.
A provocação chegou-me pelas mãos, a reflexão permaneceu no intelecto – na razão – mas a resposta veio pelos joelhos. É que nem sempre o intelecto oferece as respostas que procuramos… e então o intelecto interroga a fé. Por que razão a justiça não satisfaz? Porque é que, mesmo diante de um “fez-se justiça”, um certo sentimento de tensão, de agitação, não desaparece? A justiça não satisfaz as justas medidas… porque precisamente o ser humano foi feito para algo mais. Quer isso dizer que a justiça não é importante ou não se deva fazer? Claro que não. Significa tão somente que ela não encontra correspondência nos profundos desejos humanos.
A justiça, neste sentido, é da ordem do “fazer”, mas aquilo que nos causa dor é da ordem do “ser”: uma vida que já não é, uma coisa que já não está connosco, uma dignidade ferida…
A justiça atribui a cada um o que lhe é devido, repara segundo a mesma medida: é equidade.
O amor / caridade / misericórdia, por sua vez, é um desequilibro que dignifica, reconstrói: oferece o inesperado, a novidade… é oferecer ao outro aquilo que não é originariamente seu por direito e que o outro o acolhe como dom gratuito (se não o acolhe, a sua identidade de dom, todavia, permanece).
Por isso não se trata simplesmente de reparar um mal, de restaurar um equilibrio, mas de habitar um novo tempo transformado pelo perdão. Este passo é, nalguns casos, sobrehumano. Divino. É neste sentido, creio eu, que se lê o livro do Genesis: “Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança. [...] Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus” (Gn 1, 26-27).
Misericórdia é a graça que sustenta o ser humano, iluminando a sua condição originária de imagem de Deus, e, consequentemente, transformando-o num “instrumento da Sua paz”. É um dom mas contemporaneamente um gesto humano-divino.
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Cardeal Bernardin
Num pequeno livro, The gift of peace, o Cardeal Bernardin conta como viveu alguns momentos angustiantes da sua vida: 1. Uma falsa acusação de abuso sexual e a reconciliação com o acusador; 2. O diagnóstico de um cancro e a sua cura temporária; 3. A sua decisão de interromper a terapia para “viver no modo mais pleno possível” o resto da sua vida.
Há uns anos atrás, o Cardeal Joseph Bernardin, antigo arcebispo de Chicago, foi acusado de três casos de abuso sexual. Um dos acusadores, Stephen Cook, acabou por retirar a queixa dizendo que não estava certo que as suas memórias fossem precisas. Algum tempo depois chegou mesmo a confessar que apenas processou o Cardeal Joseph para dar maior notoriedade ao caso e, deste modo, tentar chegar ao verdadeiro abusador. Neste livro, Bernardin conta como se deu a reconciliação:
A um dado momento, o cardeal pegou num velho cálice, que estava na sua mala, e disse a Stephen que o cálice pertencia a um homem que ele não conhecia, mas que lhe tinha pedido para o usar na eucaristia por ele. E, então, naquele momento, Stephen, em lágrimas, pediu ao cardeal para celebrar a missa por ele. “Nunca em todo o meu sacerdócio – confessa o cardeal – vivi uma reconciliação tão profunda. As palavras que estou a usar para vos contar esta história não são suficientes para descrever o poder da graça divina que operou naquela tarde. Foi uma manifestação do amor de Deus, de perdão e conforto que mais esquecerei”. No abraço da paz abraçaram-se todos e depois o cardeal ungiu o Steven com o óleo dos enfermos. (J. Bernardin, The gift of peace).
Erri di Luca
Erri de Luca narra assim – no seu mais recente romance – o embaraço próprio de dois adolescentes que estão enamorados. O jovem, que é uma projecção do próprio autor nas suas memorias passadas, descobre, aos 10 anos de idade, que a palavra “amor” não é mais uma entre tantas outras que lia nos livros. É uma força misteriosa que transforma a identidade das pessoas, que as faz realizar coisas impensáveis.
“Sei agora que uma nova justiça, atenta ao caso particular e à sentença adequada, é movida pela misericórdia ao ofendido, e por isso consegue ser forte. A misericórdia é implacável e não se deixa reprimir. E é essencial, logo desde o início, na formação de uma identidade revolucionária”.
“Depois da surpresa de poder nomear a palavra amor, veio a experiência física da vergonha. A vergonha de ter permitido o sangue daqueles dois sem um gesto meu para o parar”.[/box]

