Apesar de associarmos o graffiti a uma forma de arte contemporânea, a verdade é que ele tem raízes muito antigas. Graffiti é uma palavra italiana, que deriva do grego graphein (escrever), e significa “pequeno arranhão ou incisão” numa superfície plana. Visitando algumas catacumbas de Roma ou a cidade de Pompeia, vendo alguns túmulos egípcios ou até mesmo a Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém, encontramos várias inscrições ou desenhos grafitados nas paredes. E porque não visitar a capela “Árvore da Vida”, em Braga, e apreciar o graffiti da “seta a apontar para o oriente simbólico” de Asbjörn? São mensagens gravadas na infinita extensão do tempo à espera de um olhar atento.
- Nelson Garrido.
O graffiti moderno, ainda que bebendo deste tesouro, pauta-se por regras diferentes. É uma forma de arte temporária, concebida para ser apreciada em movimento e em espaços de grande visibilidade. Existem várias formas de graffiti. Os mais simples vão desde os slogans às tags (assinatura personalizada do artista). Ambos falham como um exemplo superior de arte, dada a ausência, na generalidade dos casos, de qualidade estética.
Uma outra forma de graffiti são os murais. Requerem uma perícia considerável na sua elaboração e, normalmente, pressupõem um estudo prévio, como se de uma obra de arte tradicional se tratasse. Alguns têm mesmo a graça de se entrosarem com o ambiente circundante, dando-lhes um novo sentido. É o caso específico da street art que, inclusive, inspirou a publicidade de tipo não-convencional, onde se procura resignificar os espaços públicos.
A religião e o graffiti
A street art e o graffiti, em geral, são conhecidos por serem provocadores e críticos. A religião, fazendo parte da dinâmica social, não foge à crítica de muitos graffiters, ainda que, noutras situações, ela seja motivo inspirador para vários trabalhos. Veja-se o exemplo destes dois artistas mundialmente reconhecidos.
Banksy
O trabalho de Banksy, no âmbito religioso, sintetiza a relação decadente entre o cristianismo e a sociedade ocidental. São obras satíricas, idealizadas para reflectirmos sobre as verdades que subscrevemos. Apesar do tom crítico, elas são importantes porque promovem a relevância do cristianismo.
Críticas de Banksy
No primeiro trabalho, Banksy critica a fraca influência do cristianismo numa sociedade dominada pela tecnologia. Quando as dúvidas assolam as pessoas, onde é que elas procuram as respostas? Com a frase de Cristo – Try Google -, Bansky assinala o abismo entre a religião (Jesus) e a ciência (Google). O problema está de parte a parte, isto é, na falta de respostas da religião mas também no modelo de sociedade. Porquê? Porque as pessoas procuram respostas em espaços despersonalizados (google ou wikipedia) onde anteriormente procuravam em familiares mais próximos, no padre ou na oração. A sociedade tornou-se tão tecnológica que se fechou a outras formas de inteligência.
A oração
Do imenso catálogo do graffiter britânico, destaco estas duas obras que apresentam um lado positivo da religião. A oração ocupa aqui um lugar central. A segunda obra – “Stained Window” – esteve presente numa exposição do MOCA e a primeira foi vista nas ruas de Salt Lake City. Interessante que Banksy citou a oração do Pai-Nosso: “Perdoai os nossos pecados”.
Blu
O artista italiano Blu recorre frequentemente ao tema religioso, seja nas suas obras de rua como nos seus cadernos pessoais. Entre as mais conhecidas está um obra de 2007, que é uma interpretação do “Cristo Redentor”. Na sua versão, Cristo está totalmente submerso em pistolas e metralhadoras. Uma clara alusão ao ambiente perigoso do Rio de Janeiro, com as favelas, droga, etc.
Outras obras de destaque são o mural na Polónia (2011) e outro em Jesi – Itália (2011). Na primeira imagem é perceptível uma entidade divina que fala por meio de um megafone (com as armas do Vaticano). Escuta-a uma multidão, que mais parece apática e desprovida de razão. A segunda obra não é muito diferente: um homem, em oração, que come o seu cérebro feito de spaghetti. Será que a religião retira ao Homem a sua racionalidade? Bento XVI acredita que não, como podemos ler aqui.
Experiências cristãs ligadas ao graffiti
Atribui-se a S. Francisco de Assis uma expressão eloquente. “Anunciai sempre o evangelho; se necessário, usai palavras”. O cristianismo foi, durante muito tempo, propenso a acreditar que a transmissão da fé acontecia por meio de palavras. Mas não tem de ser assim. O silêncio e a contemplação são igualmente formas de espiritualidade.
Nos primeiros tempos, a pintura era inclusive tida como a “bíblia dos iletrados”. Autênticas catequeses. Será que, hoje, o graffiti pode incluir-se nesta categoria? Como uma forma de nova evangelização num contexto urbano?
United Church of Canada

Em Setembro de 2009, esta denominação protestante do Canadá convidou quatro graffiters, mundialmente reconhecidos, para pintarem um mural sobre a densidade da fé. “Paint your faith” foi uma experiência artística de fé mas também uma oportunidade para que a comunidade se reunisse em contemplação. Levar a fé para os espaços públicos não é novidade para o cristianismo, mas é importante que ele recrie o modo de apresentar os seus tesouros milenares num contexto da modernidade.
Paróquia de Santa Eulàlia de Provençana de L’Hospitalet de Llobregat

No início do ano 2012, o padre Ramon Mor decidiu convidar o artista Rudi, perito em murais, para decorar a cúpula da igreja paroquial. O desafio foi prontamente aceite e Rudi, juntamente com outro colega, procurou adaptar as suas técnicas ao estilo próprio de uma temática religiosa e à peculiaridade do “mural”. Apesar de tudo, ele não quer identificar exactamente a sua obra com o graffiti tradicional: “O graffiti é um estilo, isto é uma decoração mural com aerosol, mas não tem o estilo do graffiti”. Não deixa, todavia, de ser um passo ousado.
Deus foi, desde sempre, um tema recorrente no mundo da arte. Os murais ou a street art são uma forma de arte? Na minha opinião sim. Porquê? Porque existe intencionalidade artística por parte do autor e também, creio eu, qualidade estética (que naturalmente é subjectiva). O graffiti é fruto de uma época, tal como é o cubismo, o surrealismo ou a arte abstracta. Merece, por isso, todo o nosso apreço (é importante distinguir o graffiti do vandalismo).
Tal como vimos no anterior artigo sobre o rap, também aqui Deus mostra a sua relevância. Se é verdade que Deus canta rap, também é verdade que podemos pintar Deus em graffiti. A arte, quando é sincera, fala sempre do genuíno Deus e da sua criação.









Muito bom, como sempre.
Tiago, dava um bom tema de tese. Deve ser de família. A tua prima e defendeu tese sobre «funsubbing» .Gente criativa…
Verdade, concordo consigo Padre Tiago ! importante distinguir o graffiti do vandalismo, devemos pensar sempre donde veio a inspiração, porque muitas vezes a imagem fala por si…
Paz e bem.
A enorme maioria dos graffiti são vandalismo, desrespeito pelo próximo, daí também serem provocadores. Provocar alguém raramente é feito com bom coração, pode ser, mas normalmente não é. Normalmente falta aos graffiti beleza, mas o sentido do belo e até a significância parece-me estar ausente de grande parte da arte contemporânea. A arte é atualmente sacralizada por largos setores da sociedade, frequentemente aqueles que perderam o sentido do sagrado religioso e encontram na arte, nessa arte frequentemente oca e vazia, um sucedâneo de uma espiritualidade perdida. O endeusamento da arte entre alguns grupos parte daí, é a sua desesperada tentativa de preencher o vazio deixado por terem recusado Deus.
Mas ainda há arte que exprime a alma humana, até na sua expoente religiosa. O que é válido para a arte em geral deve ser válido para o graffiti, mesmo com a conotação marginal que o graffiti tem.
Há um pormenor que me espanta no ambiente urbano atual. É marcado por uma massificação silenciadora. Pelo menos em Portugal. Reparem nas cores dos edifícios e nos carros, brancos, cinzentos, pretos. Quando muito edifícios beges. A cor é encarada com desdém, se alguém se vestir com uma cor mais viva é vista admiração.
Este ambiente inexpressivo encaixa bem com as tentativas de silenciar a religião no espaço publico e com a inexpressividade de muita da arte atual.
As catedrais medievais não eram como hoje as vemos, eram cheias de cor, cheias de pinturas murais que o tempo apagou. Um pouco como a Capela Sistina.
Será que esta falta de cor, esta homogeneização do ambiente, esta melancólica monotonia urbana está relacionada com a tristeza decorrente do enfraquecimento da fé?
Quem tem Deus consigo não tem, nem deve, acomodar-se com este silenciamento. Devemos anunciar o amor de Deus de todas as formas, também no ambiente urbano.
Fala-se muito do inculturação da pastoral e da teologia, pensado nos países de missão, mas a inculturação é tão necessária na Europa como na África. Também para a cultura hip-hop.
Um último comentário sobre S. Francisco. Citando de memória uma biografia de S. Francisco lembro-me que ele disse a um dos seus companheiros para irem pregar à cidade. Foram caminhando e orando, entraram na cidade, percorreram as suas ruas, passaram pela praça principal, continuaram a saíram da cidade. Admirado perguntou o companheiro de S. Francisco:
- Mas não pregamos?
Respondeu o santo: – Já pregamos, as pessoas viram-nos a orar, pensaram na sua salvação, já pregamos.
O melhor anúncio do evangelho é o exemplo, o testemunho de vida e de amor mútuo. Isso é válido para todas as culturas.
Bem, estes foram alguns dos pensamentos que o texto "Pintar Deus em graffiti" me suscitou.
Gostei…..muitominteressante.