Ontem completaram-se oito dias da minha primeira semana em Jerusalém, onde me encontro para estudar o hebraico bíblico e a cultura judaica, com a anuência e apoio de D. Anacleto Oliveira, bispo de Viana do Castelo. Propus-me a partilhar, em cada semana, um pouco das experiências e sentimentos do dom extraordinário que é poder estar durante um semestre nesta cidade, pouco ou muito santa, cujo nome talvez signifique, curiosamente, mais como futuro e desejo a construir do que como realidade presente, «herança da paz».

Até ao momento, os meus dias têm sido dedicados ao curso de hebraico moderno e à oração. Na turma, a maior parte são jovens palestinos, de língua árabe, nascidos nesta cidade mas que não sabem a língua oficial do Estado de Israel e têm de aprendê-la para entrar na universidade. Os outros são jovens de ascendência judaica, um pouco de todo o mundo, que emigraram (ou «regressaram»?!) para Israel. Tenho ainda alguns colegas coreanos de igrejas evangélicas que vêm aprender o hebraico para poder exercer o seu ministério. A partir de Outubro, quando começar o programa curricular específico, é natural que alguns participantes mudem, sobretudo com mais colegas do Pontifício Instituto Bíblico de Roma.

Desta vez, quero relatar dois momentos muito especiais: a visita ao Santo Sepulcro e a Eucaristia dominical na Comunidade católica de expressão hebraica.

Por estranho que possa parecer… temos aulas ao Domingo. O nosso descanso é no sábado, o shabbat, de que vos falarei noutra ocasião. É claro que não é propriamente para o descanso mas é um dia para pôr os exercícios em ordem. No entanto, ao fim da tarde, decidi fazer a primeira visita à Igreja do Santo Sepulcro e vivi uma experiência muito interessante. Apenas uns minutos após entrar e subir à capela do Calvário, que se encontra instalada sobre uma construção rochosa que se acredita ser o local onde foi plantada (a frutuosa árvore d)a cruz, chegou a via-sacra católica (o templo está entregue a cinco igrejas diferentes, de que falarei noutra ocasião). No fim das duas estações que aí se rezaram, integrei-me no grupo. Atrás de nós, vinha a via-sacra dos cristãos arménios, de tal modo que, não raro, os cânticos misturavam-se e criavam uma estranha mas não totalmente desagradável confusão.

O Santo Sepulcro

Quando terminou a «nossa» via-sacra na capela católica com o Santíssimo Sacramento, os arménios estavam diante da pequena capela do Santo Sepulcro (que é, na mesma igreja, muito perto da capela do Calvário, cfr. Lc 19,41) que é pouco mais do que um quartinho com o túmulo, rodeado de paredes de mármore sustentadas lateralmente por andaimes (pela incapacidade das igrejas de chegarem a um acordo…). Quando terminaram aí as suas estações e seguiram para a sua própria capela, dois homens, um jovem e outro idoso, aproximaram-se de mim e disse o mais jovem: «marhabá» (olá!) e eu respondi-lhe do mesmo modo. E assim, em menos de dois segundos, acabei logo com 25% do meu conhecimento do árabe (adiante-se que, meia hora depois, gastaria mais duas das quatro palavras que conheço). Por isso, expliquei-lhe logo que não sei falar árabe mas podíamos falar em inglês. Então, a pedido do mais velho, cujas perguntas ele começou a traduzir, perguntou-me: «o que fazem aqui estas pessoas? Nós somos muçulmanos, vivemos em Al-Jalil, uma cidade a 35 km, e o meu amigo – diz o jovem apontando para o mais velho – há 12 anos que não entrava em Jerusalém porque estava proibido pelas autoridades israelitas. Isto é Palestina, não é Israel – apressou-se a acrescentar -. Vimos agora mesmo da mesquita de El-Aksa e o meu amigo pediu para virmos aqui. Eu já vim muitas vezes mas para ele é a primeira vez. Ele é pintor caligrafista e quer conhecer melhor o cristianismo».

A nossa conversa demorou quase duas horas. Procurámos um lugar discreto e sentamo-nos. Identifiquei, em muitas das questões, os preconceitos e as falsas informações sobre o cristianismo e sobre a Bíblia com que são instruídos muitos crentes do Islão como, por exemplo, que somos politeístas por acreditarmos na Trindade divina ou que a Bíblia é um livro pornográfico e que apenas relata abominações de péssima moral. Não é possível relatar aqui toda a nossa conversa mas não posso deixar de destacar duas coisas que me tocaram profundamente. A primeira tem a ver com a encarnação: naturalmente, falámos de Jesus e quando conversamos sobre a fé cristã na pessoa divina de Jesus, o mais idoso deles, falando em árabe mas com gestos muito expressivos, colocou as mãos no ventre e perguntou: «vocês acreditam mesmo que Deus entrou no seio de Miriam e se fez humano?!». Disse-lhe: «Sim, isso mesmo! Deus fez-se humano como nós para ensinarmos como devemos ser humanos, para perdoar-nos e dar-nos seu amor». Quando o jovem traduziu, com verdadeiros olhos de espanto, perguntou-me: «limedah, limedah, limedah?», ou seja, «porquê, porquê, porquê…?». Fez-me logo lembrar santo Anselmo e o seu célebre tratado «Cur Deus homo», isto é, «Porque Deus (feito) homem?». A resposta só podia ser uma: «por amor, porque quando amamos alguém vamos ao seu encontro, sobretudo se essa pessoa vive mal».

O Santo Sepulcro

A segunda questão que provocou admiração nos meus interlocutores, deveu-se mais a uma sorte e a uma proximidade entre o hebraico e o árabe, como línguas semitas. A uma certa altura, já a conversa girava sobre Deus criador e a sua relação com Jesus, intui que ele iria falar da Trindade. De facto, enquanto o mais idoso (não sou ainda capaz de transliterar o seu nome por causa dos sons guturais…) falava com o Moheyedeen, o mais jovem, fez os gestos com a mão de contar três e, nesse momento, eu percebi-lhes duas palavras: «Allah ehad», Deus é um (só). Ainda antes de ele acabar de falar, atalhei-o e disse-lhe «Yes! Allah ehad! Allah ehad! Allah ehad!». A surpresa de ambos foi simultânea e, sem esperar, continuei dizendo que, certamente, ensinaram-lhes que acreditamos em três deuses e somos politeístas mas não, «Allah ehad», Deus é só Um.

É claro, não acabámos a conversa, trocámos os mails e mesmo com dúvidas de que o diálogo tenha continuidade, o acontecimento ficou-me marcado pelo local e o momento, pelas perguntas e, sobretudo, pela surpresa e espanto do meu interlocutor ao falarmos de Deus único e encarnado, verdadeiro eixo da fé cristã, que não é um conceito mas uma pessoa: Jesus.

É Ele, Jesus ou Iehoshua, em hebraico, que reúne a pequena «comunidade católica de expressão hebraica» em Jerusalém. Está localizada junto à rua comercial mais fervilhante de Jerusalém, Rehov Jaffo. Mas, hoje como ontem, Jesus e o seu pequeno grupo estão «fora das muralhas» (Hb 13,12). O próprio nome da paróquia designa já uma realidade muito peculiar: é que dizer «hebraico» neste lugar (e em muitas outras línguas) não significa apenas dizer de cultura, língua ou nacionalidade israelita mas de religião ou ascendência judia e, assim, pode parecer uma contradição ser «católica e hebraica». Ora a comunidade define-se olhando para a figura de São Tiago, discípulo de Jesus e primeiro bispo de Jerusalém, que teve a missão de animar uma comunidade de crentes em Cristo maioritariamente provenientes do judaísmo. De alguma forma, esta comunidade quer ser uma ponte entre o mundo hebraico e o cristianismo e afirma-se como «uma realidade nova na história da Igreja católica» e, se pensarmos que, desde fins do séc. I d.C., os cristãos de língua e tradição hebraica quase desapareceram, então, eles estão de facto a recuperar uma chama que se apagou pouco depois da destruição do Templo no ano 70 d.C. e que era uma dos pontos essenciais da identidade da Igreja nascente.

O calvário

São pouco mais de 50 pessoas, sobretudo jovens casais, de nacionalidade diversa, e vários são mesmo provenientes do judaísmo, com todas as feridas a nível familiar e social que isso provocou. Mas todos rezam e cantam em hebraico, as melodias são facilmente identificáveis como hebraicas e, no início da celebração, uma mulher acende as velas do altar e reza a oração com que as famílias hebraicas se reúnem no início do shabbat e que é sempre a mãe a recitar: «Baruch attah, Adonai…», ou, «Bendito és tu, Senhor nosso Deus, que nos santificastes com os teus mandamentos e nos mandaste acender esta vela». Durante o resto da liturgia, muito participada no canto e nas orações, particularmente no salmo que todos recitamos juntos intercalando o refrão, há três factos/palavras (em hebraico, dabar significa palavra e coisa ao mesmo tempo…) que me atingem…

A primeira dabar acontece no fim da invocação da Trindade. «Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Elohim Ehad. Amen». O Missal romano em hebraico prevê que sempre que se invoca a Trindade se termine com a afirmação bíblica «Um só Deus». Veio-me à memória a conversa no Santo Sepulcro com o fiel muçulmano… Numa comunidade que se quer ponte e abraço para o hebraísmo, este louvor final é cheio de sentido, de respeito, de profundidade. Também no inglês existe a mesma expressão: «one God for ever and ever» e, no francês, está prevista nas igrejas anglicanas. Na língua portuguesa e na maior parte das traduções do Missal, a afirmação mais forte da unicidade de Deus apenas ressalta no primeiro artigo do Credo, apenas previsto nos Domingos, solenidades e festas: «Creio em um só Deus». Quanto mais o cristianismo vive num contexto de pluralidade religiosa, agnosticismo, ateísmo seitas pseudo-cristãs, mais claro se deve tornar o anúncio do monoteísmo trinitário presenta na palavra de Jesus, nos Evangelhos e no Novo Testamento.

O Calvário

A segunda dabar foi a expressão «o Messias» em hebraico, Masshiah, sempre e onde quer que, nas línguas latinas, dizemos «Cristo». De facto, a palavra «Cristo» mais não é do que a tradução grega e, depois, latina, de «Messias». Mas sucede que, para nós, Cristo tornou-se num nome e não num adjectivo. Não dizemos habitualmente, e menos nas orações da liturgia, «o Cristo», designando assim Jesus como o «anunciado dos profetas» (Lc 24,27), o «esperado das nações» (Lc 2,32), o «orvalho do céu» (Is 45,8). Pois bem, chamar a Jesus «o Messias», é recapitular toda a história da salvação, todo o Antigo Testamento, e é, particularmente, anunciar ainda hoje que Jesus é o Messias que o povo judeu ainda hoje aguarda. O Messias é aquele que, como diz são Paulo, «fez de todos [nós] judeus e gregos um só povo e derrubou o muro da inimizade que os separava, anulando, pela imolação da sua carne, a Lei de Moisés com as suas prescrições e decretos. […] Pela cruz reconciliou com Deus uns e outros, reunidos num só Corpo, levando em Si próprio a morte à inimizade» (Ef 2,14-16). Imaginemos que, em todas as Missas, dizemos «Messias» em vez de «Cristo» (mesmo se significa rigorosamente o mesmo) e notemos quanto isto nos desperta.

Finalmente a terceira dabar foi o canto do «Maranatà», ou «Vinde, Senhor Jesus» após a consagração, com uma melodia oriental. Senti em mim o grito da Igreja de todos os tempos e lugares que ainda hoje clama ao Senhor Jesus pelo seu regresso. Senti os apóstolos a rezar em aramaico, a língua que Jesus falava muito próxima do hebraico, a anelar o seu regresso: «maranatá». Agora penso no penúltimo versículo do Apocalipse (que os especialistas dizem ser o verdadeiro último versículo, sendo o actual um acrescento tardio): «O que é testemunha destas coisas diz: ‘Sim. Virei brevemente.’ Ámen! Vem, Senhor Jesus!» (Ap 22,20).

A Eucaristia que celebramos é a mesma de todo o mundo, a liturgia católica de todo o orbe, mas aqui, algumas palavras e gestos, ganham uma densidade e um peso substanciais. Aqui, nesta terra árida e quente, esta terra onde Deus chamou os profetas e à qual enviou o Seu Filho Unigénito e onde ainda hoje tão poucos o conhecem, aqui mais do que em nenhum lugar do mundo, as palavras são como pedras.

Pelo que acabo de partilhar, apesar do contexto político oriental que parece estar a ficar cada vez mais tenso e perigoso e que nos inspira muito receio, estou convencido que esta presença em Jerusalém, em particular, e em Israel e Palestina no geral, será de grande riqueza humana e espiritual. Acredito que esta Terra é santa pela memória dos pés que a pisaram e do sangue derramado há dois mil anos por Jesus, e desde ontem e até hoje, por milhares.

Pablo de Lima

Padre de Viana do Castelo desde 2006. Estuda Sagrada Escritura em Roma e Jerusalém

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