As Unidades Pastorais resultam da agregação de várias paróquias em torno de uma pastoral comum. Aquilo que inicialmente se afirmava como um cenário difícil de implantar, tornou-se uma realidade na Arquidiocese de Braga. Entrevistámos os padres João Torres e Manuel Baptista que, vivendo em comunidade, assumem uma missão comum. Juntos assumiram as paróquias de S. Paio de Arcos, S. Pedro de Escudeiros, Esporões, Guizande, Tadim e Priscos. Aqui fica o relato de uma experiência de comunhão e serviço, que é sinal de uma Igreja que se sabe adaptar aos novos tempos.

Na homilia de Quinta-Feira Santa, o Arcebispo Primaz apontou a unidade como umas das sete maravilhas do sacerdócio. Sacerdócio e unidade são duas palavras compatíveis?
R_ Sacerdócio e unidade são duas palavras compatíveis. É importante que os sacerdotes não sejam ilhas isoladas, cada um para seu lado, mas estejam unidos, apoiando-se uns aos outros, para assim fazerem a experiência do estar juntos no serviço a Cristo. Nenhum sacerdote administra algo seu, mas participa com os outros irmãos num dom sacramental que vem diretamente de Jesus. Sentimos cada vez mais que não seremos completamente fiéis ao ministério que o Senhor nos confiou se não formos unidos.

No passado, os padres eram formados para viverem sozinhos e assumirem individualmente a missão. Qual é a vantagem de trabalhar e viver em comunidade?
R_ A vida em comunidade traz muitos benefícios para os sacerdotes. A comunidade ajuda a um crescimento e amadurecimento humano-afetivo, de fraternidade, de diálogo, de respeito pelas diferenças. Facilita o confronto de ideias, a ajuda mútua e a partilha de experiências. Trata-se de uma experiência exigente, mas muito fecunda. Trata-se, sim, de servir a Igreja mais do que as ambições ou projetos pessoais.

E nunca surgem divisões? Que estratégias adoptam para que a unidade seja uma realidade?
R_ Em primeiro lugar, é necessário ter a coragem do diálogo franco, do respeito pelas diferenças, da humildade para reconhecer os próprios erros e limites, da disponibilidade para cooperar, quando necessário, e do sentido de humor que não permite que pequenas coisas se tornem montanhas intransponíveis. É necessário aceitar como normal, e de bom grado, que a concórdia seja imperfeita, mas também que a caridade é uma estrada a percorrer.

A renúncia também tem que ocupar um lugar essencial na vida sacerdotal. Como é experimentá-la em conjunto?
R_ A renúncia na vida sacerdotal, não se trata de nos fecharmos ao mundo, de renunciarmos definitivamente às coisas belas que o mundo nos pode oferecer e que nos dão segurança e estabilidade. Trata-se de darmos prioridade àquilo que é realmente importante. Ora, quem não é capaz de renunciar ao dinheiro, ao sucesso, ao prestígio, às honras, aos privilégios, não pode viver em unidade com outros sacerdotes. Renunciar aos próprios interesses não é perder o entusiasmo por crescer e progredir na vida. Renunciar aos próprios interesses é sufocar o egoísmo dentro de nós mesmos.

Há pouco tempo, o Papa dizia que sem oração não pode haver evangelização. Que lugar pode ocupar a oração na vida de um comunidade de sacerdotes?
R_ A oração na vida de uma comunidade sacerdotal deve ocupar necessariamente um lugar central. Todos sabemos que, ao esvanecer-se a oração, debilita-se a fé, e o ministério perde conteúdo e sentido. Sem a oração, nenhuma unidade de sacerdotes sobrevive. Quanto mais profunda e assídua for a nossa oração, maior será a nossa comunhão e mais sólida a nossa unidade. Uma comunidade de sacerdotes que celebra rezando, e reza porque celebrou, será sempre fermento fecundo de aprendizagem da oração no meio do Povo a que foi enviado como mediador da salvação.

Qual a experiência mais marcante da vossa vivência em unidade sacerdotal?
R_ A experiência mais marcante da nossa vivência em unidade sacerdotal é, sem dúvida, a comunhão que existe entre nós, como irmãos, e de nós para com o povo de Deus de quem somos servidores.

E de que formas concretas se pode expressar essa comunhão?
R_ Cada um de nós vai aprendendo a exercitar a arte da comunhão, aprendendo a ver o outro como um dom, esforçando-se por descobrir o seu lado positivo, fazendo o que está ao nosso alcance para o conhecer melhor, escutando-o e caminhando lado a lado com ele. Dar as mãos, abrir o coração, partilhar as responsabilidades e viver a lei evangélica do amor, tal como Jesus Cristo no-la deixou, é com certeza uma alegria e um incentivo para uma vida sacerdotal alegre e feliz.

Que dificuldades podem surgir neste trabalho em equipa?
R_ Os sacerdotes precisam de trabalhar (programar, organizar, executar e avaliar) em comum e em comunhão com os outros sacerdotes e com os leigos, ou seja, com aqueles que constituem a equipa pastoral. Não parece fácil, mas é necessário e urgente, vencer o individualismo. O trabalho em equipa afigura-se, cada vez mais, como uma exigência do ministério sacerdotal. Este modo de trabalhar é facilitado, quando existe entre os sacerdotes algum tipo de vida em comum. Ora, não havendo, entre os sacerdotes, grande sensibilidade para este modo de vida, compreende-se que também não seja fácil este modo de trabalhar. É necessário formar e motivar os sacerdotes, de modo a que se opere a sua conversão a estes valores. A fidelidade à missão passa certamente por aqui! Ainda é muito frequente a conceção da paróquia como ilha ou feudo isolado em que o padre é por vezes o único soberano e onde se ignora a relação de comunhão com o Bispo e o presbitério e a harmonia pastoral com o resto da Arquidiocese. Este modelo está mais relacionado com os sacerdotes anticomunhão. Tornam-se senhores com as suas armas “episcopais”: “quem manda pode”. Este modo de pensar não vai ter apenas consequências nas relações com o Bispo, mas ter repercussões nos próprios paroquianos, já que o único que sabe, manda e pode é o padre (aos outros só lhes resta obedecer).

Os leigos têm sido chamados a um papel cada vez mais relevante na vida da igreja, algo aliás incentivado pelo Concílio Vaticano II. qual poderá ser esse papel no que concerne à vida paroquial?
R_ A Igreja somos nós, os baptizados. E mais que isso, todos nós batizados, somos membros vivos da Igreja e co-responsáveis no desempenho da sua missão de salvação. A responsabilidade da ação pastoral é de toda a Igreja, e não só dos pastores. Podemos constatar que o modelo mais comum na mente de muitas pessoas é da paróquia estação ou agência de serviços religiosos, onde se vai quando se tem necessidade. Assim como se vai ao supermercado comprar o que se deseja, vai-se à Igreja encomendar o Baptismo,o casamento, o funeral, etc., ou assistir a determinadas devoções. O padre assume o papel de funcionário do culto e os cristãos o papel de clientes ou consumidores do religioso. Não nos venham dizer que isto era; isto era e é. Todos temos culpa no cartório. Podem objetar: isto é o que o povo quer. Mas nós não podemos dar só o que o povo quer, mas o que precisa. Ao serviço das unidades pastorais para além de sacerdotes, diáconos permanentes, deverá haver leigos comprometidos, exercendo cada um o seu serviço segundo o seu ministério, o seu trabalho e segundo o seu carisma próprio. Estes agentes pastorais trabalharão, não em função das comunidades a que pertencem ou pelas quais são mais diretamente responsáveis, mas em função do todo da unidade pastoral. Deste modo, aproveitar-se-ão melhor as capacidades e os carismas de cada um ao serviço de todos. Critica-se a igreja pela falta de diálogo com o mundo, do Bispo com o padre; mas será pior (mais extremo) a falta de diálogo entre os fiéis, destes com os padres, dos membros de uma comunidade com o seu superior. A única saída para a Igreja é a comunhão entre todos os seus membros. Só assim a Igreja poderá ser Igreja.

Olhando para a igreja diocesana – em que há mais paróquias que sacerdotes disponíveis – quais pensam ser as melhores estratégias de organização pastoral que podem ser incentivadas e adoptadas?
R_ Quando falamos de Unidades não se trata só de fazer da necessidade virtude, mas sim de apostar no futuro; não se trata de colocar como preocupação fundamental a redistribuição do clero, com o fim de garantir os serviços mínimos às comunidades, fazendo do padre um mero funcionário. As unidades pastorais não são soluções definitivas, mas sim mediações evangelizadoras e pastorais; não são um simples desejo do bispo ou de um grupo de presbíteros, mas sim um projeto querido por Deus, que devemos construir com toda a Igreja Diocesana. Não são uma invenção moderna. Há Dioceses na Europa que já trabalham há mais de 20 anos sobre o tema, dando passos para a constituição de unidades pastorais. As unidades pastorais devem ser constituídas à medida que forem criadas condições para isso. Podem existir vários modelos de Unidades Pastorais. É importante refletir sobre os modelos pelos quais a nossa Arquidiocese deve optar neste ou naquele território ou conjunto de paróquias. O modelo mais comum de Unidades Pastorais é o que se constitui pela agregação de várias paróquias, sem suprimir nenhuma, buscando a construção de uma autêntica comunidade cristã.

Quais são as principais vantagens associadas à vida e trabalho nestas unidades pastorais?
R_ A primeira vantagem é que há um mesmo programa, a mesma orientação e os mesmos critérios para um conjunto de comunidade, o que torna possível uma ação pastoral mais concertada e mais credível. Quando se seguem critérios diferentes em paróquias vizinhas, os fiéis ficam confusos e na dúvida sobre quem tem ou não tem razão. A segunda vantagem é que, com menos agentes pastorais e com menos trabalho, pode-se fazer mais e melhor, atingindo mais pessoas. De facto, trabalhando em conjunto, reduz-se o número de reuniões, de ações de formação e de celebrações, porque não é necessário repetir o mesmo em todas as comunidades. A terceira vantagem é contribuir para a criação de uma nova consciência de pertença à Igreja e promover uma mais alargada e consistente comunhão eclesial.

Entrevista publicada no suplemento “Igreja viva” do Diário do Minho (14 Junho 2012).

Tiago Freitas

Padre. O segundo de três irmãos. Desde há algum tempo voei da «Roma portuguesa» para a Cidade Eterna. Estudo Teologia Pastoral. Corro, leio, escrevo... e rezo.

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