Nunca ouviram do louco que acendia uma lanterna em pleno dia e desatava a correr pela praça gritando sem cessar: «Procuro Deus! Procuro Deus!» Mas como havia ali muitos daqueles que não acreditavam em Deus, o seu grito provocou grande riso… O louco saltou no meio deles e trespassou-os com o olhar. «Para onde foi Deus», exclamou, «é o que lhe vou dizer. Matámo-lo… Vós e eu! Somos nós, nós todos, que somos os seus assassinos!… Deus morreu! Deus continua morto… (F. Nietzsche, A Gaia Ciência, aforismo 125)

 O imponente filme O cavalo de Turim do realizador húngaro Béla Tarr encontra-se em exibição nas salas de cinema portuguesas! Indubitavelmente, genial. Uma narrativa de sombra e luz, silêncio e sonoridade natural (a intervenção do vento), plena de binariedade, onde o quotidiano e a existência de duas pessoas se repetem até à exaustão. A película inicial é um assombro. Em voz off, sob um fundo escuro, reconta a história de F. Nietzsche que, nos seus últimos anos de loucura e num acto humano, ter-se-á agarrado ao pescoço de um cavalo que estava a ser chicoteado pelo dono! O filme prossegue com um homem a cavalgar por meio de uma tempestade em direcção à sua casa, feita de argamassa, com um poço, e uma árvore no exterior. A trama do filme remete-nos para os finais do século XIX. A acção do filme centra-se na relação (ou ausência dela) entre pai e filha. O temporal invernal condiz com a situação interior das personagens. Apenas duas outras figuras, uma individual, e outra colectiva perturbam este quadro relacional. Durante duas horas e meia de filme participamos no jogo de Béla Tarr. O máximo de escuridão contrasta com o mínimo de luz que entra pela janela da casa. A janela é o ponto-centro que dá acesso ao mundo destas duas personagens. As falas são mínimas. Nem sequer podemos chamar diálogo. São duas vidas justapostas.

Béla Tarr procura ir ao profundo interior do humano. Numa entrevista ao jornal Público o realizador afirma: “Conhece aquele livro que fala da insustentável leveza do ser… O meu filme é o contrário, fala do insustentável peso do ser (15.06.2012). Talvez se possa dizer que é um exagero este traço trágico da condição humana, este pessimismo existencial. Mas, sendo um filme que tem como pano de fundo o pensamento nietzschiano, é natural que o filme nos transporte para um plano sequencialmente dramático. A “morte de Deus” traz consigo este crepúsculo trágico. E nisso Nietzsche foi um profeta. Para o filósofo essa morte é como uma catástrofe natural, um eclipse do sol (no filme a luz no interior da casa é quase inexistente). O insensato que procura Deus, em pleno dia, com uma lanterna na mão acesa, sabe aquilo que está em jogo, ao contrário daqueles que o ouvem a gritar (representação da humanidade). A proclamação desta morte dá-se no mercado onde o Deus da religião é vendido facilmente e a salvação se alcança a um preço alto.

O filósofo proclama a morte do deus-burguês que garante a salvação com base num moralismo pietista. O louco que constata a morte de Deus é o mesmo que o pretende ver, procurando-O. Mas porque razão o Homem (o insensato) procura Deus? Como pode procurá-Lo aquele que o nega?  Qual foi a reacção daqueles que se dizem crentes em Deus mas não O procuram nem se apercebem das transformações culturais? O deus apresentado pelo cristianismo representa para Nietzsche a negação da vida concreta e terrena, tornando-se um conceito demasiadamente idolátrico e crepuscular. A morte de Deus acaba por ser afirmação de todas as possibilidades do ser humano.

Nietzsche percebeu perfeitamente toda a dimensão trágica e dramática da morte de Deus, afirmando que “o maior dos acontecimentos –«a morte de Deus», ou dito, por outras palavras, o facto de a fé no deus cristão ter sido despojado da sua plausibilidade- começa já a lançar as primeiras sombras na Europa. É verdade que poucas pessoas têm a vista suficientemente avisada para perceber semelhante espectáculo; parece, pelo menos a esses, que um sol acaba de se pôr, que uma antiga e profunda consciência se tornou dúvida: o nosso mundo parece-lhes fatalmente todos os dias mais vesperal, mais desconfiado, mais estranho, mais ultrapassado” (F. Nietzsche, A Gaia Ciência, aforismo 343).

A morte anunciada no aforismo 125 de Gaia Ciência é a desconstrução da ideia mentalmente construída de Deus. Aliás, “fomos nós” que matámos o Deus que tínhamos concebido em nossa mente (o homem fraco dá lugar ao homem forte). Este deus construído nem deus é; ele é apenas um conceito limitado do pensamento do homem. Este deus “humano, demasiado humano” é passível de ser morto mediante a auto-divinização humana. Este endeusamento do homem surge como consequência lógica da morte de Deus e da criação de uma nova humanidade. Nietzsche anuncia isto de modo esplêndido e irónico: “mas uma vez que Zaratustra falou assim ao seu coração: «Será possível! Este santo velho na sua floresta ainda não ouviu dizer que Deus morreu!» … Eu vos anúncio o Super-homem. O homem só existe para ser superado”.

O quadro do filme é trágico mas inevitável. A janela é a porta de acesso ao mundo, ao real, que mesmo assim continua distante, inalcançável. Se Ohlsdorfer, que incarna a figura paterna, encontra na janela o desejo de habitar o mundo que permanece sempre distante, já a sua filha vê no tecto do quarto o niilismo inevitável da existência, o presente sem futuro, sem esperança, que a noite traz consigo. Nada é novo, tudo se repete dia- após-dia: os gestos, as tarefas, os afectos, os modos, os ritmos. É uma vida fastidiosa, pesada, que vai provocando paulatinamente a morte psíquica das personagens. O próprio cavalo de Ohlsdorfer adoece. Não come nem bebe. Também ele padece da monotonia do tempo e do contexto existencial. No meio da aridez e da agressividade temporal, há um poço de água, que vai alimentando as esperanças das personagens. Mas água não é eterna. Também o poço seca. Inevitavelmente pai e filha (com o cavalo adoentado) partem da inospitalidade para encontrar hospitalidade, mas sem sucesso. A agressividade temporal não permite grandes aventuras e regressam novamente à origem, à casa, à janela, que medeia o mundo exterior e interior.

Todo este processo desencadeia e origina o niilismo humano. A vida torna-se trágica mas necessária para que o homem se revitalize e se engrandeça numa autonomia antropológica absoluta. Nietzsche tem plena consciência do perigo que niilismo acarreta, mas considera-o mais alta consciência da humanidade: “se um filósofo pudesse ser niilista, sê-lo-ia, porque encontra o nada por detrás de todos os ideais do homem” (F. Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos, aforismo 32) que em tudo supera a consciência de Deus. O niilismo confirma o carácter trágico e dramático da existência, já não só em relação a Deus mas extensivo a toda a humanidade. A chegada deste niilismo é descrita de forma esplêndida e musical no prefácio A Vontade de Poder: “porque surgiu agora como necessário o evento do niilismo? Porque os nossos anteriores valores chegaram por si às últimas consequências; pois que o niilismo é o remate lógico dos nossos valores e dos nossos ideais mais altos – e porque nos foi necessário primeiramente passar pelo niilismo para descobrirmos o valor real desses valores- teremos um dia necessidade de valores novos” (F. Nietzsche, A Vontade de Poder – O Niilismo Europeu).

O advento do niilismo é para Nietzsche um momento inquietante, na medida em que tudo aquilo que o homem colocava como supremo de si próprio e o elevava acima de toda animalidade, é qualquer coisa de obscuro, aterrador e acutilante. Deste modo, o niilismo não surge directamente da desvalorização da tradição moral como desfecho de um novo sentido, mas está subjacente e é resultado dos próprios valores. O niilismo é um estado intermédio, de profunda patologia porque supõe uma transformação radical do ser humano. Aquilo que era tudo (norteamento da vida por valores, ideias e capacidade de avaliação), passou a ser «nada» (tudo se faz absurdo e é um tempo de total ausência de valores), atirando o ser humano para um estado de enfermidade, de decadência e degeneração.

Portanto “o niilismo representa uma fragmentação patológica transitória; ao generalizar exuberantemente e ao concluir que nada tem sentido, não deixa de ser patológico- ou porque as forças são insuficientemente vigorosas, ou porque a decadência é periclitante e ainda não inventou meios de acção. A ideia de que não há verdade, que não há natureza absoluta das coisas, nem coisa em si, tudo isto é niilismo e niilismo externo. O niilismo coloca os valores das coisas precisamente no facto de não haver nenhuma realidade que corresponda ou que tenha correspondido a essa realidade” (F. Nietzsche, A Vontade de Poder- O Niilismo Europeu). Nietzsche passa a rejeitar não só objectividade dos valores cristãos, como também o seu conteúdo, uma vez que o “conceito de «além», de «mundo verdadeiro» foi inventado para desvalorizar o único mundo que existe para destituir a nossa realidade terrena de todo o fim, de toda a razão, de todo o propósito” (F. Nietzsche, Ecce Homo). Podemos dizer que a ideia subjacente à morte de Deus se coaduna com questão da procura da verdade, isto é, pela relação e até identificação do Deus cristão com o mundo ideal platónico.

O filme O cavalo de Turim é esta condição de negação permanente em que o humano vive inevitavelmente. À transmutação dos valores, à negação da moral e do deus cristão, nada de novo se sucedeu. Tudo se adensa para a ausência de esperança, que simboliza o advento da morte. O humano vive ainda na expectativa, entre sombras e luzes, do advento do verdadeiro homem. Uma existência apolínea à espera de se realizar na dança dionisíaca, de sair do interior obscuro para a luz definitiva da vida. A negação do Transcendente – da irredutível beleza do mundo à redutibilidade antropológica – gera na vida do homem a inevitabilidade trágica de um ser-para-a-morte, de simplesmente acabar na sua animalidade corpórea. Não há existência que resista – nem mesmo a do cavalo de Turim – à ausência de afecto e de relação. A Nietzsche essa ausência levou à loucura e à morte. Ao cavalo de Turim até hoje ainda ninguém sabe o que lhe aconteceu!

João Paulo Costa

Presbítero da Arquidiocese de Braga. A estudar actualmente Teologia Fundamental em Roma.

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