1. King of Kings (de Cecil de Mille)

Realizado nos alvores do cinema mudo (1927), este filme é um clássico sobre a vida de Jesus. Tem como principal protagonista Henry Warner (Jesus). Ao bom estilo de Hollywood, todo os actores são famosos e bem constituídos. Permanecerá um modelo para muitos dos filmes sobre a vida de Jesus. O filme procura manter-se fiel ao texto bíblico (conteúdo) sem deixar de prender atenção do espectador apresentando tecnicamente (forma) Jesus do modo mais espectacular possível (efeito). O realizador usa a fantasia para atrair o olhar do público envolvendo-o emotivamente nos episódios. A intenção é de recontar o Evangelho maximizando os meios técnicos à sua disposição de modo que o espectador entre “dentro” do filme (utilização do sistema a duas cores (technicolor) visível no milagre da cura do cego e no momento da Ressurreição). Um aspecto de particular interesse é a cena da criança cega. O espectador vê o rosto de Jesus pelos olhos da criança curada de cegueira (são as crianças que compreendem os sinais do Reino e da presença de Jesus).

King of King - Cecil de Mille

Não obstante a sua marca pessoal, De Mille mantém-se fiel à transcrição da narrativa bíblica. O filme é pródigo na utilização dos efeitos especiais, excesso de figurativos, melodramatismo na apresentação dos heróis e mártires, a distinção clara entre bons e maus, entre bem e mal. Tipicamente hollywoodiano. As cenas bíblicas são apresentadas de modo majestoso e de ritmo de marcha, onde predominam os efeitos (flashes de luz), as cruzes iluminadas, as recitações expressivas e de forte pendor comunicativo. Um filme sacro e profano, entre a verdade textual dos evangelhos e a invenção, entre uma reconstrução histórica detalhada e a fantasia. A trama narrativa das cenas bíblicas é acompanhada de particularidades que pouco acrescentam à figura e à mensagem de Jesus (por exemplo a crucifixão de Judas em paralelo com a de Jesus, acontecimento não bíblico) mas beneficiam a eficácia do filme junto do espectador (os milagres abundam porque geram sempre maior curiosidade do público). A cena da crucifixão é o momento zenit, filmada em paralelo com o suicídio de Judas, aliando momentos de crescente dramatismo e cenas verdadeiramente pictóricas.

A tensão criativa centra-se na procura de expressar a mensagem bíblica através de um meio novo (cinema) desfrutando das suas potencialidades para exprimir o texto original (Evangelho). É neste sentido que podemos utilizar a categoria da transcrição na medida em que o realizador se mantém fiel à mensagem sem que com isso deixe de usar as técnicas cinematográficas para o rentabilizar ao máximo. Para tal introduz invenções de fantasia (o início do filme no palácio de Maria Madalena e toda a recriação pitoresca do espaço) criando assim um imaginário de fascínio no público. Poderíamos portanto falar de uma sacra aventura que transmite mensagem mas não descura os meios cinematográficos ao dispor, traduzindo assim em imagens o prodígio e o milagre (é conhecida a imagem da abertura do Mar Vermelho no filme Os Dez Mandamentos que ainda hoje povoa o nosso imaginário simbólico). Um modelo clássico de representação da figura de Cristo que sintetiza bem o modelo de Hollywood: Jesus o herói divino, centro da narração, que combate o mal fazendo o bem, chegando ao final do seu percurso cheio de obstáculos e contratempos como o Salvador, o Rei dos reis.

João Paulo Costa

Presbítero da Arquidiocese de Braga. A estudar actualmente em Roma.

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